Garajau-rosado

Sterna dougallii

Outros nomes: gaivina-rosada, andorinha-do-mar-rosada

A maior parte dos açorianos não tem ideia que nos Açores nidificam duas espécies de garajau. O que é natural, uma vez que o garajau-comum e o garajau-rosado são muito semelhantes, e esta última espécie facilmente passa despercebida ao observador mais desatento. As aves são tão semelhantes que durante muitos anos até os cientistas as confundiram. Mais precisamente durante 55 anos, tempo que decorreu entre a descrição do garajau-comum por Lineu (1758) e a descrição do garajau-rosado por Montagu (1813). Mas que este desafio não desencoraje, antes aguce a nossa determinação em observar esta que é uma das aves marinhas mais elegantes e singelas dos nossos mares. Saibamos nós aproveitar o facto dos Açores constituirem um dos melhores locais na Europa para a sua observação.

Garajau-rosado (Foto: Carlos Ribeiro)

Identificação

A menos que as aves sejam observadas a uma curta distância, o auxílio de material óptico é normalmente precioso para distinguir garajaus-comuns de garajaus-rosados. As aves são muito semelhantes, mas o garajau-rosado possui uma cauda mais bifurcada e mais longa, de tal forma que quando as aves estão pousadas, a extremidade da cauda se estende ainda além da extremidade da asa. Isso não acontece no caso do garajau-comum, que quando pousado mostra a extremidade da asa e da cauda de tamanho semelhante. O garajau-rosado é de um cinza mais alvo no dorso e a proporção de preto na extremidade das asas é muito menor do que no caso do garajau-comum. O branco no ventre do garajau-rosado é mais “puro”, enquanto que no garajau-comum, por vezes, apresenta uma tonalidade quase acinzentada.  Em Abril, quando chegam aos Açores, vindas dos seus locais de migração a sul, a separação das duas espécies é facilitada pelo facto do bico do garajau-rosado ser completamente preto. Mas a partir do final de Maio, quando eclodem as primeiras crias, a base do bico do garajau-rosado torna-se laranja na base e vai gradualmente aumentando até que em finais de Junho-inícios de Julho a proporção de laranja em relação à extremidade preta é quase tão grande como a de garajau-comum. A partir de finais de Julho-inícios de Agosto as aves começam a fazer a muda das rectrizes e nessa altura também se torna mais complicado reconhecer a espécie através desta característica. Tal como o nome indica, o garajau-rosado apresenta uma tonalidade rósea no ventre mas, a menos que a ave seja vista a curta distância e com boas condições de luz, esta característica é difícil de observar. Por vezes basta-nos confiar nos nossos ouvidos e mesmo sem observar os garajaus é possível saber de que espécie se trata. De facto, o canto do garajau-rosado é bastante distinto, muito mais rouco e grave, o que permite separar com facilidade estas duas espécies pelas suas vocalizações.

Garajau-rosado (Foto: Carlos Ribeiro)

Abundância e calendário

Estival nidificante, reproduz-se entre Maio e Agosto, e está presente nos Açores desde finais de Março até ao início de Novembro, altura em são ainda observados os migradores mais tardios. Tal como todas as aves marinhas dos Açores, trata-se de uma espécie colonial, reproduzindo-se geralmente em colónias mistas com o congénere garajau-comum. O garajau-rosado benefícia assim da protecção proporcionada pelo garajau-comum, mais afoito e aguerrido com potenciais intrusos. A única colónia exclusivamente de garajau-rosado localiza-se no ilhéu da Baixa do Moinho (Flores). Ao contrário do garajau-comum, o garajau-rosado tem uma distribuição mais restrita e concentra-se sobretudo nas ilhas das Flores, Graciosa e Terceira. Ainda que em menor número do que o garajau-comum, tanto em termos de colónias, como de indivíduos reprodutores, o garajau-rosado nidifica regularmente em todas as ilhas dos Açores. Historicamente, as colónias mais importantes localizam-se nos ilhéus da Alagoa & Baixa do Moinho (Flores), Vila (Santa Maria), Praia (Graciosa) e Contendas (Terceira). Nestas cinco colónias concentra-se anualmente entre 40 e 75% da população nidificante. Nos anos mais recentes a principal colónia de nidificação tem sido o ilhéu da Praia, na Graciosa; entre 2011 e 2016 esta colónia albergou em média 43% da população nidificante.

Onde observar

Entre Abril e Outubro. A ilha das Flores é porventura o local do arquipélago onde esta espécie é mais fácil de observar, sobretudo ao longo da linha de costa entre o porto das poças e o porto do boqueirão. Nessa zona as aves podem ser observadas em alimentação, em bandos mistos com garajau-comum, ou em voo, muitas vezes transportando um pequeno peixe no bico para alimentar as crias.  O porto da Praia, na Graciosa, é também um local privilegiado para a sua observação. Adicionalmente, pode ser observada em algumas colónias situadas em ilhéus facilmente visíveis de terra, como é o caso dos ilhéus da Ponta das Contendas (Terceira) e dos Ilhéus da Furna (Pico) e, em alguns anos, do ilhéu de São Roque e do rochedo na praia da Vinha d’Areia (São Miguel).

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